Não existem mais médicos como antigamente... A grande maioria tornou-se Doutores!
Mas, eu garanto que houve um tempo que eles existiam, cheguei até a conhecer alguns. Fui um menino com problemas de amídalas e febres fortes que me jogavam na cama por uma semana inteira. Ele então vinha até minha casa, batia na porta do meu quarto, sentava-se na minha cama, conversava comigo realmente interessado no meu estado geral, me examinava meticulosamente, me animava, prescrevia medicamentos e ia embora. A conta, só chegava para os meus pais posteriormente e, só depois que eu "sarava" por completo.
Já adolescente, conheci outro dessa espécie rara. Tratei-me com ele durante três anos seguidos, três vezes por semana contra uma bronquite alérgica. O tratamento era simples e rápido. Uma injeção subcutânea e pronto. No entanto, sempre que entrava no consultório, ele conversava comigo, interessava-se por minha vida, meus estudos, namoradas, ríamos juntos e, só então, aplicava a injeção. Fiquei completamente curado aos 15 anos.
Hoje, acompanhando uma pessoa amiga, constatei que médicos dessa espécie foram extintos e substituídos por Doutores oniscientes que fazem da medicina um negócio altamente lucrativo.
Não escrevo sobre a área pública. Essa é pior que o inferno de Dante e não pretendo ir tão fundo. Fico no raso mesmo, onde a situação não é menos revoltante. Refiro-me a medicina particular, essa que pagamos através dos nossos cada vez mais caros planos de saúde. Nesse tipo de negócio altamente lucrativo o que encontrei?
Em primeiro lugar, total desrespeito pelo doente. Ainda não encontrei um Doutor que respeite o horário marcado. Ora, se sou um "cliente" e estou "pagando", o mínimo que deveria receber é o cumprimento da hora agendada pelo profissional contratado. Mas, os Doutores estão acima desse princípio elementar e impõe a suas vítimas, horas de espera nas suas ante-salas apertadas, mal ventiladas e repletas de revistas velhas e manuseadas.
Agora, alguns instalaram televisores para distrair as vítimas ansiosas e, quando, por fim, os Doutores se dignam a atender o "cliente", a coisa só piora.
Parto do princípio que, pessoas que procuram um médico, desculpem, um Doutor, estão com algum problema, preocupadas, angustiadas e na maioria das vezes fragilizadas, carentes e em busca de uma solução para o mal que lhes afligem.
Quando por fim, recebem permissão para a audiência com o todo poderoso, adentram uma sala e encontram a solução para suas mazelas, sentado atrás de uma mesa enorme como uma barreira, sério, prático, impessoal e objetivo. Afinal, tempo é dinheiro para os Doutores.
Esperançoso, o "cliente" conta seus problemas para um interlocutor que se quer o olha enquanto anota numa ficha o resultado de algumas perguntas mecânicas em tom notadamente impessoal. Preenchido o formulário, os Doutores rabiscam rapidamente com aquela bela caligrafia uma série de pedidos de exames e despacham o "cliente" sem nenhum exame básico. Afinal, tempo é dinheiro para os Doutores e há uma sala cheia de "pagantes" aguardando.
Pior é quando o "cliente" volta com os resultados, pois fica evidente que o Doutor faz um grande esforço para se lembrar dele e, se não fosse a ficha, não lembrariam mesmo. Aí, é mais simples e rápido ainda. Eles pegam o exame com aquela atitude de sapiência, ticam uns itens como se você fosse uma mercadoria sendo checada, prescrevem uma lista de medicamentos, marcam uma nova tortura, quero dizer, consulta e despacham rápido.
Acho que seria demais esperar que os Doutores abrissem a porta de suas salas pessoalmente, com um sorriso, e absurdo sonhar que praticassem a "teoria do abraço". Gestos simples que acolheriam e minimizariam a angústia de quem, infelizmente, tem que se valer desses Deuses da Medicina.
Minha mãe foi assassinada por um desses Doutores ao buscar tratamento para uma artrite. O Doutor, onisciente e onipotente, aplicou-lhe uma injeção de cortisona no joelho sem muitas perguntas e mandou-a para casa. Ela era cardíaca e, ao cabo de uma semana, faleceu. Eu estava presente, ninguém me contou. Ok caberia uma série de processos, mas na dor da perda, você fica debilitado por um tempo suficiente para que as provas desapareçam.
Saudades dos médicos que conheci, aqueles que realmente nos viam como seres complexos e humanos, e repudio os Doutores que nos enxergam como máquinas com defeito procurando "orçamento" para conserto.
Infelizmente, os Doutores transformaram a medicina em algo rentável para eles, para a indústria farmacêutica e para os laboratórios com os quais são "conveniados" e comissionados.
Acredito, que ainda existam Médicos atuando, mas não os tenho visto ultimamente...
Em contrapartida, conheço vários veterinários que atendem na hora marcada, sem pressa, investigam criteriosamente os animais, dão carinho para eles, conforto para os donos e receitam cuidadosamente sem vínculos com a indústria farmacêutica. Não seria o caso dos Doutores (aparentados com Deus) fazerem cursos com esses veterinários e compreenderem por fim que fizeram um juramento que nada tem a ver com o enriquecimento pessoal?
Não estaria na hora dos Doutores compreenderem que não somos "clientes" e sim pacientes? Que somos seres complexos e que necessitamos também de uma atenção maior, uma palavra de carinho, um sorriso, um conforto? Não estaria na hora de descerem de seus pedestais?
Não sei, continuo saudoso dos médicos, pois pra mim, os Doutores tanto tratam como matam.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
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Um comentário:
Adoro o seu jeito de escrever. E o mais interessante é que de uma forma simples e clara você sempre fala o que todos querem dizer.
Assino embaixo dessa sua crônica. Saudades dos médicos de antigamente! Hoje em dia, dos vários que a idade me fez procurar, não tenho muito do que reclamar. A maioria tornou-se amigo e até se parece com médicos do passado, mas realmente alguns dão vontade de nem voltar a consultar...
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