terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A ARTE DE DAR SEM DEGRADAR

Só vim aprender essa delicada arte, após alguns males causados inconscientemente, mas efetivos.Acho que é uma dessas compreensões que só a idade nos trás.
Por vezes, a nossa generosidade e vontade de agradar acabam sendo maléficas a quem só desejamos doar.
Lembro-me de três exemplos claros disto: Márcia era uma menina bonitinha, grandes olhos negros, brilhantes, vivaz, alegre, profissional séria e espirituosa. Morava em uma quitinete no Flamengo, sustentava a mãe, ajudava o irmão, uma tia e ainda era uma companheira divertida no trabalho.Certa feita, a empresa montou um evento em uma mansão no Joá e fomos todos convidados a participar como uma espécie de presente por nossas atuações.
A casa era cinematográfica, toda em vidro a flutuar sob o mar da Barra. Não vou descrever a suntuosidade dos aposentos, pois o propósito aqui, não é arquitetônico.
A reunião transcorreu com sucesso embora Márcia se refugiasse em um canto com uma forte dor de cabeça. No dia seguinte não era a mesma, estava taciturna, séria e no final do ano casou-se com um velho rico e mudou-se para os Estados Unidos. Visitei-a em uma ocasião em seu loft no Soho, lindo e muito bem decorado. Jantamos a luz de velas e notei que seus olhos haviam perdido o brilho e nada mais restara da menina alegre que conhecera.
Anos mais tarde, já em outra empresa, conheci Diogo, um menino espontâneo, comunicativo, brincalhão que morava com a mãe em uma casa humilde, vivendo felizes às custas do pouco que ganhavam. Seu mundo era restrito a seu bairro, o futebol e as garotas da sua rua. O máximo que se aventurava, era a viagem de ônibus até o trabalho onde se enfiava no almoxarifado. No final do ano, em um sorteio, Diogo ganhou uma passagem com direito a acompanhante e estadia de sete noites em um dos melhores hotéis de Buenos Aires. Percebi de imediato o olhar cumprindo que lançou a TV de 14 polegadas ganha por um colega. Sei que tentou trocar o presente, mas não conseguiu. Foi então que me meti procurando mostrar-lhe o quanto seria bom conhecer novos povos, culturas e costumes inteiramente de graça e, ainda por cima, dar esse presente a sua mãe. Ele confiava em mim e a minha insistência querendo seu bem, acabou animando-o.
Chegou o Natal, o ano novo e as férias e quando voltei não encontrei mais o Diogo na empresa. Demitira-se me contaram.
Preocupado, tão logo pude, fui visitá-lo. Encontrei-o no bar da esquina, na hora do almoço, já alcoolizado. Conversando com a mãe, soube que Diogo tornara-se alcoólatra, envolvera-se com drogas, mal chegara da viagem.
Como eu ainda não havia aprendido a lição, resolvi dar uma festa de boas vindas para um amigo que chegava de uma viagem de 30 dias pelos Estados Unidos. Convidei um seleto grupo e preparei com gosto uma surpresa que imaginava agradá-lo profundamente. E agradou sim, durante há meia hora que ele agüentou até "desmaiar" no quarto, exausto, deixando a mim e os convidados com cara de pastel.
Só então comecei a questionar se não deveríamos perguntar as pessoas que vamos presentear o que elas realmente gostariam de receber. Na nossa generosidade egoísta, na maioria das vezes, supomos saber o que é bom para os outros como se eles fossemos nós.
Só sei que parei de pensar "isso" é exatamente o que fulano (a) gostaria. Agora pergunto, mesmo estragando a surpresa, mas agradando sem degradar.

domingo, 2 de dezembro de 2007

O FIM DO NATAL

A cada ano fico mais triste com o Natal, pois vejo que o verdadeiro sentido dele desapareceu. Não, não vou trilhar conceitos religiosos e sim, tatear pela sociologia das massas.
Fico me perguntando o por que de toda essa correria, por que tanta trabalheira, por que tantos gastos?
Natal, se ainda me lembro, é a festa de comemoração do nascimento de Jesus.
Ok, que bom que ele nasceu, mas me pergunto se esse estouro da boiada apressada em decorar, comprar e cozinhar ainda se lembra disso.Acho que não...
Os donos dos rebanhos enfiaram nas cabeças das rezes que é a hora de comprar, gastar tudo, consumir para que eles, os donos, fiquem cada vez mais ricos.
Estava eu em uma loja e meu coração doeu. Vi uma senhora humilde comprando uma árvore de natal, muito além das suas evidentes posses, em doze vezes. Vai pagá-la até o ano que vem! Ok, se isso a faz feliz, tudo bem, mas estou certo que mais felizes e ricos ficam os que vendem.
O Natal perdeu a pureza para o rebanho ensandecido e chego a pensar que o décimo terceiro salário foi inventado (pelos donos) só para isso mesmo.
O sentido "espiritual" perdeu-se, trocado e compelido para o consumo desenfreado daqueles que menos podem e deveriam.
Eu, rês desgarrada, não me submeto às ordens dos donos. Que me importa os vizinhos? Que me importam as lojas faiscantes? Que me interessa essa alegria falsa, fabricada e com com entrega na hora marcada?
Nada! Não obedeço, não dou ouvidos, passo ao largo sem ser contagiado. Longe de mim esse vírus inoculado, longe essa febre desvairada, longe essa alegria encomendada.
Não sou contra a comprar e dar presentes, pelo contrário, adoro presentear a quem gosto, mas nunca com hora e datas marcadas por outrem.
Passo ao largo dessas imposições do mercado. Faço ouvidos moucos, às ordens dos modismos impostos.
Mas, o que esperar de um rebanho que corre às lojas em busca das TVs digitais criadas pelos donos dessas rezes, quando 40% do país ainda tem esgoto a céu aberto?
Nada! São apenas gados marcados, tangidos a voz dos donos a caminho do abate.
O meu natal não está em papéis coloridos, embrulhos, árvores, e nem mandos do capitalismo selvagem.
O meu natal está dentro de mim, simples como a capelinha da minha rua que não é menos bela que a mais majestosa das catedrais.
Sem mais...